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Uma Conversa com a ilustradora Lisveth Ponce de León

Ilustrar um livro requer uma grande criatividade, talento, esforço e, sobretudo, um toque especial. Para celebrar o mês de março, o mês a quem dedicamos aos nossos grandes ilustradores, a Trinta decidiu perguntar a uma das suas profissionais como é o seu trabalho.

Não há melhor forma de começar esta ronda de entrevistas do que passar primeiramente a conhecer o trabalho da nossa muito talentosa Lisveth:

O mundo dos livros infantis é feito de encontros, e o percurso de Lisveth Ponce de León é a prova de que a curiosidade é a melhor bússola criativa. Tudo começou em 2016, entre as páginas e o design editorial da prestigiada Editora Gente Nueva, em Cuba. O que começou como um trabalho técnico de paginação rapidamente se transformou numa paixão pelo traço, impulsionada pelo contacto diário com grandes nomes da ilustração.

O salto do design para o desenho da nossa querida ilustradora aconteceu de forma orgânica. Começando com os livros de atividades, passando para os das adivinhas, até chegar à complexidade poética dos álbuns ilustrados. O talento não passou despercebido, tendo sido consolidado com o 2.º prémio no concurso internacional belga Manitas de Amberes. Tratou-se de um marco que não só validou o seu talento, como a incentivou a explorar a ilustração como uma poderosa ferramenta de comunicação global.

Para Lisveth, ilustrar para crianças é muito mais do que preencher páginas com cores; é a oportunidade de abordar temas profundos através da simplicidade, do humor e da honestidade. Nesta entrevista, exploramos como esta artista transforma emoções em imagens e cria ligações genuínas com leitores de todas as idades.

E: Que papel achas que a ilustração desempenha na formação do leitor infantil?

L: A ilustração é, muitas vezes, a primeira porta de entrada para a leitura. Antes mesmo de saberem ler, as crianças olham para as imagens, interpretam-nas e inventam as suas próprias histórias. Isso dá-lhes confiança e ajuda-as a compreender o mundo à sua volta. Por outro lado, ajuda a desenvolver a sensibilidade visual, a imaginação e a capacidade de observação, além de criar uma relação afetiva com o livro desde cedo.

E: Consideras que ilustrar para crianças implica responsabilidades específicas? Quais?

L: Sim. Implica respeito pelo olhar da criança, clareza visual, cuidado com estereótipos e consciência de que as imagens também educam. Ilustrar para crianças não é simplificar, é ser honesto e cuidar de cada detalhe.

E: Como é o teu processo criativo desde que recebes o texto até à ilustração final?

L: Começo sempre por ler o texto com atenção às emoções que me desperta. A partir daí, penso nas personagens, nos ambientes e no ritmo visual do livro. Organizo as cenas, defino a narrativa visual e faço esboços até sentir que cada momento está bem claro. Depois, passo à ilustração final e, por vezes, de forma espontânea, surge-me a vontade de incluir personagens secundárias e objetos escondidos que convidam a observar melhor, a deduzir emoções e a despertar curiosidade e interesse pela história.

E: De que forma o texto influencia as tuas escolhas visuais?

L: O texto é sempre o ponto de partida. Influencia o tom, a paleta cromática, a expressão das personagens e a composição das cenas. Procuro que a ilustração complemente o texto, ajudando a transmitir emoções, reforçar a narrativa e oferecer ao leitor pistas visuais que enriquecem a história.

E: Que técnicas utilizas com mais frequência (tradicional, digital ou mista)?

L: Trabalho maioritariamente em técnica digital, mas começo sempre com esboços a lápis para definir a estética do livro, as personagens e a composição das cenas. Depois, passo para o digital e reconstruo as ilustrações no computador. Talvez por vir do Design Gráfico, acabo por levar para a ilustração uma lógica mais de síntese e geometria, com cores planas, e o digital é o meio em que me sinto mais à vontade para construir a imagem e dar forma a esse estilo.

E: Há alguma ferramenta ou material de que não abdicas no teu trabalho?

L: Não abdico do lápis e do papel, que uso para registar as primeiras ideias de forma livre, tanto em casa como num jardim, num café ou em qualquer lugar onde surja, de repente, uma ideia que depois refino no computador.

E: Quando ilustras, pensas no leitor final? De que forma?

L: Sim, sempre. Penso na criança como um leitor atento e curioso. Tento criar imagens que convidem a observar, descobrir detalhes e imaginar, enriquecendo a leitura e acompanhando o texto.

E: Já recebeste algum feedback de crianças ou mediadores de leitura que te tenha marcado?

L: Sim. Num livro de atividades que ilustrei, alguns pais disseram-me que os miúdos começavam a fazer as páginas por iniciativa própria, mantinham-se concentrados e pediam para fazer mais atividades. Esse tipo de feedback fica-me na memória, porque mostra como a imagem também pode guiar, motivar e apoiar a aprendizagem sem pressão.

E: O que gostarias que uma criança sentisse ao folhear um livro ilustrado por ti?

L: Gostava que sorrisse, que se surpreendesse e que sentisse o livro como um lugar seguro para imaginar e explorar.

E: Que desafios enfrentas atualmente como ilustrador(a) de livros infantis?

L: O principal desafio, como ilustradora estrangeira a viver em Portugal, é construir rede e visibilidade num mercado novo. Isso implica dar-me a conhecer, criar relações e garantir consistência e qualidade em cada projeto, enquanto continuo a evoluir e a adaptar-me ao contexto editorial sem perder o meu estilo visual.

E: Gostarias de partilhar mais alguma coisa?

L: Gostaria apenas de agradecer à editora por esta entrevista e pela confiança ao longo do tempo. Em Portugal, admiro muito o talento dos ilustradores e o cuidado com que as editoras infantis constroem os seus livros. Para mim, é um orgulho e uma grande responsabilidade fazer parte deste percurso e contribuir para um catálogo tão bem trabalhado. Tenho muita vontade de continuar este caminho, partilhar experiências e continuar a crescer profissionalmente.

 

Para além de amor, o trabalho de Lisveth apresenta um caráter distinto e colorido. Revela ainda uma tocante sensibilidade, sendo capaz de transformar cada história num universo visual profundamente expressivo. Em cada ilustração percebemos um olhar atento ao detalhe, à atmosfera e à dimensão simbólica das narrativas, confirmando a ilustração como linguagem literária por direito próprio.

Lisveth já trabalhou com a Trinta em diversos projetos, porém destacam-se claramente três:

Léo, unicórnio na escola do Bairro Novo é uma narrativa juvenil em que um visitante inesperado, o Leo, um unicórnio muito curioso, entra na rotina da Escola do Bairro Novo e altera a forma como colegas e professores percebem a diferença e a amizade. As ilustrações de Lisveth León enriquecem este livro, não apenas ao dar vida às personagens, mas também por traduzirem visualmente o espírito de aceitação e empatia que atravessa cada página, sugerindo um mundo onde a diversidade é celebrada na simplicidade do quotidiano.  

Para leitores um pouco mais velhos, Bernardo e a borboleta do Vale de Torga oferece uma experiência de leitura mais contemplativa. Aqui é-nos construído um conto que se move entre o visível e o invisível, as ilustrações de Lisaveth ajudam a criar uma ponte entre texto e imagem, convidando o leitor a desacelerar, a observar o detalhe e a sentir com o coração atento.

Por fim, Camilo Castelo Branco: Se não posso escrever não poderei viver é uma biografia literária pensada para leitores entre os 9 e os 12 anos que, através de uma narrativa envolvente e de ilustrações evocativas, revela a força criadora e a intensidade de um dos maiores nomes do nosso romantismo. A combinação de texto e imagem aproxima a vida do autor dos leitores mais jovens, mostrando como a escrita foi, para Camilo, um refúgio.

Estas três obras, pela sua diversidade de temas, públicos e estilos ilustrativos, representam bem o poder da literatura ilustrada.  Cada uma, à sua maneira, convida à reflexão, ao encantamento e à descoberta de novas formas de ver o mundo.

Lisveth foi a primeira de 3 ilustradores que aceitaram partilhar connosco a sua experiência com a ilustração do público infantil. Não percas a entrevista da próxima semana!