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O Humor e a Emoção na ilustração de Mariline Rodrigues

O mundo do livro infantil é um espaço onde a imaginação não conhece limites e onde as personagens ganham vida muito antes de a primeira palavra ser lida. Para Mariline Rodrigues, a ilustradora que hoje apresentamos, este percurso começou com o simples prazer de desenhar e com a curiosidade de imaginar o que sentiam e pensavam as figuras que criava no papel.

Foi durante a sua licenciatura em Design Gráfico que a paixão se transformou em propósito. Numa das suas aulas, descobriu a força das narrativas visuais e a expressividade de obras como as de Catarina Sobral, que lhe atraíram a atenção. Foi na forma como as imagens visualizavam o texto, incluindo um toque de humor e um estilo ilustrativo infantilizado, que decidiu que queria ilustrar histórias para crianças.

Para Mariline, ilustrar para crianças é muito mais do que decorar páginas com o seu traço autêntico; é uma forma complexa de comunicação onde a imagem assume o papel principal. Partindo do princípio de que as crianças interpretam formas e cores antes mesmo de dominarem o alfabeto, o seu trabalho foca-se na criação de camadas de leitura que o texto nem sempre revela.

Através do uso de metáforas visuais e de pontos de vista únicos, as ilustrações da Mariline convidam o grande e o pequeno leitor a serem observadores ativos, capazes de analisar e retirar as suas próprias conclusões. Nesta entrevista, mergulhamos no processo criativo de uma artista que acredita no poder das imagens para enriquecer narrativas e abrir portas a novos mundos de interpretação.

E: Que papel achas que a ilustração desempenha na formação do leitor infantil?

M: Um papel muito importante, sem dúvida. O pequeno leitor aprende primeiro a ler imagens, muito antes de aprender a ler letras e textos. É curioso observar as informações que as crianças conseguem retirar olhando apenas para as ilustrações. As cores são um exemplo disso, pois criam uma sensação dentro da história e transmitem ao leitor as emoções que as personagens poderão sentir. Eu gosto de pensar no livro infantil como uma ferramenta educativa que pode transmitir, através das suas histórias, diversas aprendizagens.

E: Consideras que ilustrar para crianças implica responsabilidades específicas? Quais?

M: Há muitas histórias bonitas com mensagens importantes. Claro que nem todas as histórias têm de transmitir uma mensagem ou ter um fim pedagógico. No entanto, acho que o livro infantil é uma ótima ferramenta para poder abordar diversas questões e temáticas, tanto para os pequenos leitores como para os grandes. Há assuntos delicados e difíceis de abordar para os encarregados de educação; o livro pode ser uma excelente ferramenta de apoio para tratar temáticas como bullying, morte, abuso, perda, etc. E isso não significa que as histórias sejam pesadas; antes pelo contrário, podem ajudar a tirar o “peso” da temática.

E: Como é o teu processo criativo desde que recebes o texto até à ilustração final?

M: Depois de receber e ler o texto, divido-o por páginas. Tento colocar pouco texto em cada página, de modo a criar uma leitura mais fluida. De seguida, penso nas personagens e na forma como vão interagir. O importante é perceber que mensagem o livro vai passar e de que forma posso transmiti-la. As composições e os cenários devem acompanhar esse raciocínio.

Conforme vou pensando nestas questões, vou criando o storyboard — a planificação das ilustrações para cada página. É importante pensar na página individual, mas também em como vai funcionar como um todo. Junto com o storyboard, crio alguns rascunhos a pensar nas composições e nos elementos da história.

Depois de o storyboard estar aprovado pela editora, inicio o processo de criação das ilustrações. Faço um breve estudo de cores e seleciono uma paleta que utilizo para todas as ilustrações do livro. Penso que é importante para a linguagem visual do livro existir harmonia e coerência entre as cores. Antes de iniciar a ilustração, faço um estudo de cores de cada página no digital. Este método tem-me ajudado bastante no processo criativo e na criação de harmonia em cada página.

Eu gosto de texturas e de misturar o analógico com o digital. Acho que as texturas enriquecem as ilustrações e dão um toque especial. O meu processo, geralmente, começa pela criação de texturas manuais e depois faço os acabamentos no digital. Por vezes, sobreponho texturas manuais com digitais, o que resulta em manchas interessantes.

E: De que forma o texto influencia as tuas escolhas visuais?

M: As minhas ilustrações partem do texto e da mensagem que a história pretende transmitir. A escolha dos materiais é influenciada pela história. No livro “Onde vivem os segredos?”, utilizei aguarelas porque pretendia retirar um pouco de peso da temática. Eu queria que a história fosse suave e não pesada. Se a história transmitisse uma mensagem mais forte ou violenta, teria usado materiais como carvão ou texturas de pastel.

E: Como descreves a tua experiência de colaboração com a nossa editora?

M: A Trinta por uma Linha tem sido uma excelente editora na publicação do meu livro. Eles acreditaram no livro e no seu propósito desde o primeiro dia. Isso foi muito importante para mim: saber que veem potencial na obra e que apoiam o projeto.

 

E: Que técnicas utilizas com mais frequência (tradicional, digital ou mista)? Podes dar um exemplo?

M: Eu gosto de misturar técnicas. Não quero fazer tudo no digital porque tenho prazer na criação manual, especialmente nas texturas e nas irregularidades. Geralmente, crio texturas e manchas manualmente através de vários materiais. Depois, digitalizo e edito no Photoshop. Os esboços e acabamentos faço-os no Procreate.

E: Quando ilustras, pensas no leitor final? De que forma?

M: Penso sempre. Porque, no final do dia, os livros são para o público infantil. Há cada vez mais livros ilustrados para adultos e acho fantástico existir mais procura por parte deles, mas, por enquanto, a maioria continua a ser para o público infantil. Gosto de olhar para o livro pelos olhos das crianças. Há sempre um toque de inocência e uma enorme curiosidade pelo mundo. Faz-me lembrar a minha infância e a forma como eu via o mundo.

E: Já recebeste algum feedback de crianças ou mediadores de leitura que te tenha marcado?

M: Ao longo das sessões que fui realizando, tive feedback muito positivo. O meu livro tem o propósito de ser uma ferramenta de apoio na comunicação e prevenção do abuso sexual infantil. Muitos educadores e pais partilharam que sentiam dificuldades em abordar certas questões e que procuram apoio nos livros infantis. Durante uma sessão, uma educadora de infância disse que, em 25 anos de carreira, já tinha lidado com muitas situações difíceis e que o livro era uma excelente forma para ela abordar a diferenciação entre toques bons e toques maus, assim como segredos bons e segredos maus, com os seus alunos.

Numa sessão na escola, uma menina disse que tinha um segredo mau. No fim da aula, a professora foi falar com ela para perceber se existia algum problema. O objetivo do livro é mesmo este: criar espaço para o diálogo e a confiança. Quando iniciei o livro, pensei: se ele ajudar a denunciar um único caso de abuso, já cumpriu o seu propósito.

E: O que gostarias que uma criança sentisse ao folhear um livro ilustrado por ti?

M: Gostaria que a criança pudesse encontrar um refúgio seguro, seja na ilustração ou no texto. Que, ao ler ou folhear o livro, sinta felicidade e conforto. Quando gostamos de um livro, voltamos a lê-lo e a folheá-lo; por vezes, até encontramos novas formas de leitura.

E: Que desafios enfrentas atualmente como ilustrador(a) de livros infantis?

M: Existem muitos ilustradores talentosos em Portugal e pelo mundo inteiro. É difícil conseguir sobressair no meio de tantas pessoas e chegar às editoras. As editoras recebem diariamente tantos portfólios que o processo se pode tornar frustrante, tanto para o ilustrador como para a editora. Contudo, cada ilustrador é único e tem um trabalho muito próprio.

E: Que conselho darias a quem quer começar na ilustração infantil?

M: Há grandes ilustradores que nunca fizeram um curso de artes plásticas ou ilustração. O percurso académico não é obrigatório, mas pode ser um bom começo. O mais importante é tentar sempre evoluir no próprio trabalho e não deixar de experimentar técnicas novas. Para quem quiser começar, recomendo workshops de diferentes técnicas ou cursos de ilustração e storytelling. Elementos como composição, cor e metáforas visuais são fundamentais para construir um bom livro infantil.

Dentro do catálogo da Trinta, é necessário destacar a obra de Mariline, Onde vivem os segredos?. Trata-se de uma obra rica e cuidada que apresenta o objetivo autêntico de ajudar os mais pequenos. Num mundo ideal, este livro não precisaria de existir. Mas, no mundo real, ele é essencial.

“Onde vivem os segredos?” é uma obra sensível e corajosa, criada para ajudar pais, educadores e, acima de tudo, crianças a navegar por um dos tópicos mais difíceis: a autoproteção.

O que torna este livro tão especial?

Este livro não fala “por meias palavras”, mas fá-lo com a ternura e a clareza de que as crianças precisam. Ajuda a perceber a diferença vital entre “segredos bons” (como uma festa surpresa) e “segredos maus” (aqueles que nos deixam tristes). Ainda reforça uma das mensagens mais importantes que podemos passar: “O meu corpo é meu” e incentiva a criança a identificar e a desenhar os seus adultos de confiança, mostrando que a única forma de lidar com segredos maus é partilhá-los.

Para garantir a abordagem mais correta, “Onde vivem os segredos?” contou com a revisão científica de Marta de Oliveira, psicóloga e presidente da ASAS. O livro inclui também um guia fundamental para o adulto (pai, mãe, tutor ou educador) sobre como ler esta história com a criança, como observar as suas reações e como agir em caso de necessidade.

Podemos considerar que a Mariline contribui muito, não só para o meio editorial português, mas também para o social, ao trazer ao mundo uma obra tão bela e essencial.

Mariline foi a segunda das três ilustradoras que a Trinta entrevistou. Não percas o blog da próxima semana, onde iremos conhecer o trabalho de mais uma excelente profissional!