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A universalidade da literatura infantojuvenil

A universalidade da literatura infantojuvenil

Os livros para crianças viajam mais longe

Há um preconceito antigo que ainda resiste, mesmo entre leitores cultos: a ideia de que a literatura para a infância é um género menor, um território preliminar da literatura “a sério”, destinado apenas a preparar os leitores para as obras adultas.
A história da literatura desmente esta ideia de forma quase humilhante.
Se observarmos com alguma atenção o que verdadeiramente circula pelo mundo, percebemos um facto curioso: muitos dos livros mais universalmente lidos pertencem à literatura para a infância e juventude.
Enquanto inúmeros romances consagrados permanecem confinados às suas línguas de origem, certos livros destinados às crianças atravessam culturas, geografias e gerações com uma facilidade quase milagrosa.
O Principezinho lê-se em mais de trezentas línguas.
Pinóquio continua vivo mais de um século depois.
Alice no País das Maravilhas permanece inesgotável.
Pippi das Meias Altas, Momo, A História Interminável ou O Hobbit tornaram-se património cultural global.
A pergunta impõe-se: porquê?

A simplicidade profunda

Uma das razões reside naquilo que poderíamos chamar simplicidade profunda.
A literatura infantojuvenil trabalha frequentemente com estruturas narrativas muito claras: amizade, crescimento, descoberta, medo, coragem, perda, esperança.
São temas elementares — mas elementares no sentido mais nobre da palavra: pertencem à experiência humana básica.
Um grande livro infantil não precisa de uma arquitetura narrativa extremamente complexa para tocar leitores de culturas diferentes.
Basta-lhe atingir aquilo que Italo Calvino chamava “a transparência da imaginação”.
É por isso que um menino que conversa com uma raposa num planeta distante consegue falar ao coração de leitores de todos os continentes.

A infância como território comum

Há também um elemento antropológico fundamental: toda a humanidade passou pela infância.
Os adultos pertencem a culturas diferentes, profissões diferentes, ideologias diferentes. Mas todos foram crianças.
A infância constitui, por assim dizer, um território universal da experiência humana.
Quando um livro consegue capturar algo essencial desse território — a solidão de crescer, a alegria do jogo, o medo do desconhecido, o desejo de amizade — a história torna-se imediatamente reconhecível para leitores de qualquer lugar.
É por isso que personagens como Heidi, Pippi, Momo ou Matilda parecem sempre, de alguma forma, nossas contemporâneas.

A força das imagens e da imaginação

Outro fator decisivo é a presença da imaginação.
A literatura infantojuvenil trabalha frequentemente com metáforas visuais muito fortes: animais que falam, florestas encantadas, ilhas misteriosas, casas impossíveis, criaturas fantásticas.
Estas imagens possuem uma capacidade extraordinária de atravessar fronteiras culturais.
Uma raposa sábia.
Um dragão solitário.
Um gigante triste.
Estas figuras pertencem a uma espécie de mitologia universal da infância.
Enquanto a literatura adulta se torna muitas vezes profundamente dependente de contextos sociais e culturais específicos, a literatura infantil pode operar num nível mais simbólico e arquetípico.
E aquilo que é arquetípico viaja mais facilmente.

A literatura que não tem medo de ser grande

Existe ainda uma outra razão, talvez mais subtil.
Muitos grandes livros para crianças não têm medo de formular perguntas gigantes.
Perguntas sobre a morte.
Sobre o sentido da vida.
Sobre a amizade.
Sobre o tempo.
O curioso é que essas perguntas aparecem frequentemente em histórias aparentemente simples.
O Principezinho fala da morte e da responsabilidade.
Momo fala do tempo e da alienação.
A História Interminável fala da imaginação como força vital da humanidade.
São livros que se apresentam como histórias para crianças, mas que na verdade falam à condição humana inteira.
Talvez por isso sobrevivam.

A universalidade que nasce do local

Paradoxalmente, a universalidade da literatura infantil não nasce da neutralidade cultural.
Nasce quase sempre de uma forte ligação ao lugar de origem.
Astrid Lindgren escreve profundamente a partir da paisagem sueca.
Tove Jansson a partir da cultura finlandesa.
Gianni Rodari a partir da tradição italiana.
Michael Ende a partir de uma sensibilidade profundamente europeia.
E, no entanto, esses livros tornam-se universais.
Porque aquilo que é profundamente verdadeiro num lugar acaba muitas vezes por revelar algo verdadeiro sobre todos os lugares.

A lição para a literatura contemporânea

Talvez haja aqui uma lição para o presente.
Num tempo em que o mercado editorial procura frequentemente produzir livros “internacionais” desde o primeiro momento — livros pensados para circular globalmente — corre-se o risco de esquecer um princípio simples:
a universalidade não se fabrica.
A universalidade nasce quando uma história consegue tocar algo essencial da experiência humana.
E isso pode acontecer numa pequena aldeia sueca, numa escola italiana, numa ilha imaginária ou numa raposa que ensina um menino a cuidar de uma rosa.
A literatura infantil lembra-nos, de forma quase desarmante, que o que é verdadeiramente humano não precisa de tradução cultural complicada.
Precisa apenas de uma boa história.
E talvez seja por isso que, quando olhamos para a biblioteca do mundo, descobrimos uma surpresa: muitos dos livros que realmente viajaram mais longe foram escritos para leitores que ainda estavam a aprender a ler.