Quando se fala da literatura infantojuvenil publicada em Portugal, discute-se muitas vezes a qualidade dos autores, a importância das ilustrações, o papel das escolas ou o impacto das campanhas de promoção. Discute-se menos um fator que, silenciosamente, molda o horizonte de leitura das crianças: as traduções de literatura infantojuvenil.
A questão é simples e perturbadora: quanto daquilo que as crianças portuguesas leem foi realmente escrito em português?
Em muitas livrarias, sobretudo nas mesas destinadas aos leitores mais jovens, a resposta aproxima-se perigosamente de metade — e, em certos momentos, ultrapassa-a.
Não se trata de um fenómeno recente. Desde o século XIX que a literatura para a infância em Portugal se construiu em diálogo com traduções. Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, Heidi ou O Principezinho chegaram através desse movimento de circulação cultural.
Mas há uma diferença fundamental entre esse processo histórico e aquilo que hoje acontece.
Antes, traduzia-se literatura infantojuvenil já tinha provado resistir ao tempo.
Hoje, muitas vezes traduz-se traduzir literatura infantojuvenil que ainda não passou pelo teste do tempo — mas passou pelo teste do mercado.
O império das séries globais
Traduzir literatura infantojuvenil contemporânea é, em grande medida, um fenómeno globalizado. Certas séries nascem já com vocação internacional e são adquiridas simultaneamente por dezenas de países.
O exemplo mais paradigmático é Diary of a Wimpy Kid, de Jeff Kinney, publicado em Portugal como O Diário de um Banana. O sucesso da série foi avassalador e gerou um novo modelo editorial: narrativa híbrida entre texto e desenho, humor rápido, estrutura episódica, serialização extensa.
A partir desse momento, muitas editoras europeias — incluindo portuguesas — passaram a procurar livros que replicassem esse formato.
Outro caso evidente é Harry Potter, de J. K. Rowling. Embora literariamente mais ambicioso do que muitas séries contemporâneas, o fenómeno demonstrou às editoras o poder de um best-seller juvenil global.
O problema não está na existência destes livros — alguns são excelentes. O problema surge quando a lógica da importação se transforma em dependência editorial.
Comprar sucesso em vez de descobrir literatura
Para uma editora, adquirir direitos de tradução de um livro que já vendeu centenas de milhares de exemplares noutro país é uma decisão racional.
O risco é menor. O marketing já vem praticamente feito. A reputação já existe.
Em comparação, publicar um autor nacional desconhecido representa sempre um investimento mais incerto.
Assim, forma-se uma lógica editorial compreensível, mas perigosa: comprar sucesso em vez de o descobrir.
Em consequência, muitos catálogos infantojuvenis passam a organizar-se em torno de fenómenos internacionais.
O leitor infantil cresce rodeado por personagens que falam originalmente inglês, vivem em universos culturais distantes e respondem a códigos humorísticos e narrativos que nem sempre pertencem ao seu contexto cultural.
Não há nada de errado na circulação internacional de histórias. A literatura sempre atravessou fronteiras.
Mas quando traduzir literatura infantojuvenil passa a ocupar o centro do mercado, a literatura nacional tende a deslocar-se para as margens.



O problema invisível: a qualidade da tradução
Existe ainda outro aspeto raramente discutido: a qualidade das traduções.
Traduzir literatura para a infância é uma tarefa extremamente complexa. Exige sensibilidade linguística, domínio do ritmo narrativo, capacidade de adaptar jogos de palavras, humor e referências culturais.
No entanto, a pressão comercial do mercado infantojuvenil — sobretudo nas séries — conduz frequentemente a processos de tradução acelerados.
Prazo curto.
Orçamento limitado.
Revisões mínimas.
O resultado são textos que, embora legíveis, perdem frequentemente nuances de linguagem e riqueza estilística.
A criança lê.
Mas lê uma língua empobrecida.
E quando uma geração inteira se habitua a um determinado tipo de linguagem simplificada, o próprio horizonte literário começa a mudar.
A tradução como forma de colonização cultural
Talvez a questão mais profunda seja esta: as traduções não são neutras.
Quando determinados mercados dominam a produção cultural global — como acontece hoje com o mundo anglófono — os seus modelos narrativos, os seus arquétipos e até o seu humor tendem a tornar-se universais.
O resultado é uma espécie de colonização cultural suave.
As crianças passam a imaginar o mundo através de cenários escolares anglo-saxónicos, estruturas familiares específicas, ritmos narrativos muito próprios e um tipo particular de comicidade.
A literatura nacional, com as suas paisagens, a sua musicalidade linguística e as suas referências culturais, perde terreno.
E com ela perde-se também uma parte da diversidade literária.
O paradoxo necessário
E, no entanto, seria absurdo defender uma literatura infantil fechada sobre si mesma.
As traduções são indispensáveis.
Sem elas não teríamos acesso a autores fundamentais como Astrid Lindgren, Tove Jansson, Gianni Rodari, Michael Ende ou Roald Dahl.
A literatura para a infância sempre foi profundamente internacional.
O problema não é traduzir literatura infantojuvenil.
O problema é traduzir demasiado e publicar demasiado pouco do que se escreve localmente.
Ou, pior ainda, traduzir apenas aquilo que já chega embalado como sucesso comercial.
O que realmente forma leitores
Curiosamente, muitas das obras que acabam por marcar profundamente os leitores jovens não são necessariamente as que dominaram as tabelas de vendas no momento da sua publicação.
São livros que encontram leitores lentamente.
Livros que entram nas bibliotecas escolares.
Livros que um professor recomenda.
Livros que um bibliotecário descobre.
Livros que um leitor oferece a outro leitor.
A história da literatura mostra que o verdadeiro impacto raramente coincide com o impacto imediato do mercado.
Por isso talvez valha a pena lembrar uma coisa simples: traduzir literatura infantojuvenil é um gesto cultural poderoso.
Mas publicar autores próprios também o é.
E uma literatura infantil verdadeiramente viva precisa de ambas as coisas.
Caso contrário, arrisca-se a tornar-se apenas aquilo que o mercado global decide exportar.
Ou, dizendo de forma mais simples:
uma literatura traduzida de si mesma.
João Manuel Ribeiro
