Há perguntas que surgem repetidamente quando se fala de literatura e de livros para crianças. Pais perguntam-nas. Professores perguntam-nas. Bibliotecários perguntam-nas. Por vezes, até os próprios autores e editores as colocam.
Uma das mais frequentes é esta: “Mas o que é que este livro ensina?”
À primeira vista, parece uma pergunta perfeitamente razoável. Vivemos numa sociedade que valoriza a educação. Queremos que as crianças aprendam. Queremos ajudá-las a crescer. Queremos oferecer-lhes experiências enriquecedoras.
É natural que procuremos nos livros instrumentos capazes de contribuir para esse crescimento. Contudo, vale a pena fazer uma pausa. Porque talvez a questão mais importante não seja aquilo que um livro ensina.
Talvez a questão seja outra. O que acontece quando exigimos que todos os livros ensinem alguma coisa?
Uma velha tradição
A ideia de que os livros para crianças devem ensinar não nasceu ontem. Durante séculos, os livros destinados aos mais novos tiveram uma função sobretudo educativa e moral. Muitos eram escritos para transmitir valores, corrigir comportamentos ou ensinar regras de conduta. As personagens exemplares eram recompensadas. As personagens desobedientes eram castigadas.
As histórias funcionavam como instrumentos de formação moral. Não é difícil compreender porquê. A infância era vista como uma etapa de preparação para a vida adulta. Os livros deveriam ajudar nesse processo.
E, de certa forma, ainda hoje carregamos essa herança. Continuamos a perguntar se um livro ensina a amizade. Se ensina a partilha. Se ensina a tolerância. Se ensina a respeitar a diferença.Se ensina a lidar com as emoções.
A pergunta mudou pouco.
O problema não está no que o livro ensina
Importa esclarecer uma coisa. Não existe nada de errado em um livro ajudar uma criança a compreender melhor o mundo. Pelo contrário. Os grandes livros fazem-no constantemente. Quem leu uma boa história sobre amizade compreende melhor a amizade. Quem leu uma boa história sobre o medo compreende melhor o medo. Quem leu uma boa história sobre a perda compreende melhor a perda.
A literatura sempre teve essa capacidade. O problema surge quando a intenção de ensinar passa a ser mais importante do que a própria história. Quando a narrativa deixa de existir para servir a literatura e passa a existir para servir uma mensagem. Nesse momento, algo se perde.
A diferença entre literatura e sermão
Imaginemos duas histórias. Na primeira, uma criança mente e descobre, através das consequências dos seus atos, a importância da honestidade. Na segunda, uma criança mente e, ao longo de vinte páginas, o autor aproveita todas as oportunidades para explicar ao leitor porque é errado mentir.
Qual destas histórias tem mais hipóteses de permanecer na memória? Provavelmente a primeira. Porque os leitores raramente gostam de ser tratados como alunos permanentes. Gostam de descobrir. Gostam de interpretar. Gostam de participar.
A literatura não funciona como uma aula. Funciona como uma experiência. Não transmite apenas informação. Provoca emoções. Cria perguntas. Abre possibilidades. E é precisamente aí que reside a sua força.
Os livros mais importantes nem sempre têm uma mensagem clara
Pensemos nos livros que mais nos marcaram. Muitos deles continuam connosco décadas depois. Mas será fácil resumir a sua mensagem numa frase? Nem sempre. Alguns permanecem precisamente porque resistem a interpretações simplistas. Porque são complexos. Porque contêm ambiguidades. Porque apresentam personagens contraditórias. Porque levantam questões difíceis.
Os grandes livros não costumam oferecer respostas fáceis. Oferecem experiências humanas. E as experiências humanas raramente cabem em slogans.
A literatura não resolve problemas
Nos últimos anos, tornou-se comum falar de livros que abordam temas específicos. Livros sobre bullying. Livros sobre emoções. Livros sobre ansiedade. Livros sobre diversidade. Livros sobre separação dos pais. Livros sobre luto.
A existência destes livros é importante. As crianças precisam de encontrar na literatura temas que dialoguem com a sua vida. Precisam de se reconhecer. Precisam de encontrar palavras para experiências difíceis. Mas devemos evitar uma expectativa excessiva.
Os livros não são medicamentos. Não resolvem problemas por si próprios. Não eliminam o sofrimento. Não substituem relações humanas significativas. Não substituem a escuta. Não substituem o diálogo.
Um livro pode ajudar. Pode iluminar uma experiência. Pode oferecer companhia. Pode sugerir caminhos.
Mas continua a ser literatura. E a literatura trabalha sobretudo através da imaginação e da sensibilidade.
Quando a mensagem engole a história
Todos conhecemos livros que parecem ter sido escritos ao contrário. Primeiro surge uma lição. Depois constrói-se uma narrativa para a ilustrar. O resultado raramente é feliz. As personagens tornam-se artificiais. Os conflitos parecem forçados. Os diálogos soam pouco naturais.
O leitor percebe rapidamente que está a ser conduzido para uma conclusão previamente decidida. E perde interesse. As crianças, aliás, são particularmente sensíveis a este problema. Reconhecem facilmente quando uma história está a tentar ensinar-lhes alguma coisa de forma demasiado explícita. E tendem a afastar-se. Não porque rejeitem aprender. Mas porque procuram histórias. Não palestras disfarçadas.
O poder das perguntas
Talvez uma das maiores virtudes da literatura seja a capacidade de formular perguntas. Perguntas difíceis. Perguntas incómodas. Perguntas sem resposta definitiva.
O que significa ser corajoso? O que significa ser justo? Porque fazemos sofrer quem amamos? Porque sentimos inveja? Como sabemos quem somos?
A literatura não responde necessariamente a estas questões. Mas ajuda-nos a habitá-las. E isso tem um valor imenso. Porque crescer não significa acumular respostas. Significa aprender a viver com perguntas cada vez mais complexas.
A imaginação também educa
Por vezes, falamos da imaginação como se fosse algo secundário. Como se fosse apenas uma forma de entretenimento. Mas a imaginação desempenha um papel fundamental no desenvolvimento humano.
É através dela que exploramos possibilidades. Que simulamos situações. Que compreendemos perspetivas diferentes. Que criamos alternativas para o futuro.
Uma criança que lê histórias sobre dragões, florestas encantadas ou viagens impossíveis não está a perder tempo. Está a exercitar capacidades fundamentais. Está a aprender a imaginar mundos diferentes. E quem consegue imaginar mundos diferentes está mais preparado para transformar o mundo real.
O que procuram realmente os leitores?
Quando uma criança abre um livro, raramente procura uma lição.Procura uma história. Procura aventura. Procura humor. Procura mistério. Procura beleza. Procura emoção. Procura companhia. E é precisamente porque encontra essas coisas que acaba por aprender. A aprendizagem surge como consequência. Não como objetivo exclusivo. É um efeito colateral feliz da literatura. Talvez um dos mais importantes.
Então os livros devem ensinar ou não?
A resposta é simultaneamente simples e complexa. Os livros não precisam de ensinar. Mas os bons livros acabam quase sempre por ensinar alguma coisa. Não porque foram escritos para esse fim. Mas porque foram escritos com verdade. Quando uma história é autêntica, quando as personagens são credíveis, quando os conflitos são humanos e quando a linguagem tem qualidade, o leitor sai transformado. Mesmo que não consiga explicar exatamente porquê. Talvez essa seja a melhor forma de aprendizagem. Aquela que acontece sem imposições. Sem moralismos. Sem sermões. Sem testes no final. Aquela que acontece porque uma história encontrou lugar dentro de nós. E decidiu permanecer ali durante muito tempo. Por vezes durante toda a vida. Porque os livros mais importantes não são aqueles que nos dizem o que pensar. São aqueles que nos ajudam a pensar melhor. E essa é uma lição que nenhuma lição consegue ensinar.

