As crianças e a poesia

Porque é que as crianças precisam de poesia?

As crianças precisam de poesia? Quando se fala de leitura para crianças, a poesia raramente é a primeira coisa que vem à cabeça.

Pensamos em histórias, em aventuras, em mistérios, em romances juvenis, em álbuns ilustrados.

A poesia costuma surgir mais tarde. Ou, pior: muitas vezes nem chega a surgir. É frequente ouvirmos adultos dizerem que não gostam de poesia, não a compreendem, a consideram difícil, não sabem como a apresentar às crianças.

Curiosamente, as crianças não costumam partilhar esse receio. Pelo contrário. Antes de aprenderem a ler, muitas já brincam naturalmente com as palavras. Gostam de lengalengas, adivinhas, canções, rimas, repetições, do som das palavras. E é precisamente aí que a poesia começa. Muito antes da escola, dos manuais.

Muito antes das análises literárias.

A poesia nasce da escuta

Talvez o primeiro contacto de uma criança com a poesia aconteça ainda antes de compreender o significado das palavras. Acontece quando alguém canta, embala, repete uma lengalenga, conta uma história cheia de ritmo.

A criança escuta. E responde. Não ao significado, mas à música, ao som, à cadência, à repetição.

A poesia vive nessa dimensão da linguagem. Lembra-nos que as palavras não servem apenas para transmitir informação. Também servem para criar beleza, ritmo, emoção.

Antes de compreender, sentimos

Os adultos aproximam-se frequentemente dos textos perguntando: “O que é que isto quer dizer?”

As crianças fazem outra pergunta. Mesmo que não a formulem dessa forma.

Perguntam: “O que é que isto me faz sentir?”

Contudo,essa diferença é importante, porque a poesia trabalha precisamente nesse território. Nem sempre comunica através de explicações, procura transmitir mensagens claras ou apresenta conclusões.

Muitas vezes, limita-se a sugerir, evocar, provocar. E isso é suficiente.

Uma criança pode gostar profundamente de um poema sem conseguir explicá-lo. Tal como pode gostar de uma melodia sem saber nada sobre teoria musical.

A poesia e a descoberta da língua

Há quem pense que a poesia é um luxo. Uma espécie de ornamento cultural, algo agradável, mas dispensável. Talvez aconteça exatamente o contrário. Talvez a poesia esteja no coração da própria linguagem.

Os poetas prestam atenção às palavras de uma forma especial. Observam os sons, as repetições, as pausas, os significados múltiplos, as imagens escondidas.

Ao ler poesia, as crianças descobrem que a língua é muito mais rica do que imaginavam. Percebem que uma palavra pode significar várias coisas, qu uma frase pode sugerir mais do que afirma, que a linguagem é um espaço de criação. Não apenas um instrumento de comunicação.

A imaginação precisa de poesia

Vivemos rodeados por uma linguagem funcional. Mensagens. Instruções. Notificações. Avisos. Informação. Grande parte das palavras que encontramos diariamente existe para cumprir uma função prática.

A poesia lembra-nos outra possibilidade. A possibilidade de brincar, imaginar, transformar.

Num poema, uma nuvem pode tornar-se um barco. Uma árvore pode conversar com o vento. Um gato pode guardar segredos. Uma pedra pode sonhar.

Tudo é possível. E essa liberdade é preciosa. Efetivamente, a imaginação não é um luxo. É uma capacidade fundamental para compreender e reinventar o mundo.

Ilustração de Bolota (livro «De onde cêm os abraços?»)

A poesia ensina a olhar

Uma das grandes virtudes da poesia consiste em desacelerar o olhar.

Os poetas reparam em coisas que os outros deixam escapar. Uma sombra, uma folha, um silêncio, uma gota de chuva, uma formiga, uma janela iluminada.

Ao ler poesia, aprendemos a prestar atenção, a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer. E essa aprendizagem é particularmente importante numa época marcada pela velocidade.

A poesia convida-nos a parar, observar, escutar, contemplar.

Talvez seja uma das formas mais eficazes de resistência à distração permanente.

A poesia ajuda-nos a nomear emoções

Nem sempre é fácil falar sobre aquilo que sentimos.

Às vezes faltam-nos palavras. Outras vezes temos demasiadas.

A poesia ocupa frequentemente esse espaço. Oferece imagens para emoções difíceis de descrever, metáforas para experiências complexas, linguagem para aquilo que parecia impossível dizer.

Uma criança que lê poesia descobre gradualmente novas formas de compreender o mundo interior. Descobre que a tristeza pode ter muitas formas, a alegria pode ter muitas cores, o medo pode assumir diferentes rostos, o amor pode manifestar-se de inúmeras maneiras. E essa descoberta tem um valor imenso.

Não existem leitores demasiado novos para a poesia

Muitas vezes, ouvimos dizer que a poesia deve ser deixada para mais tarde. Primeiro as histórias. Depois os romances. Só mais tarde os poemas. Porém, a experiência mostra exatamente o contrário. As crianças costumam aproximar-se da poesia com enorme naturalidade. Sem preconceitos, receios, expectativas excessivas. Aceitam o jogo, a surpresa, o absurdo, a musicalidade.

Muitas vezes, são os adultos que complicam aquilo que as crianças compreendem intuitivamente, na medida em que procuram explicações quando bastaria escutar, procuram interpretações quando bastaria sentir.

Ler poesia em voz alta

Talvez a melhor forma de apresentar poesia a uma criança seja simples.

Ler em voz alta. Sem testes, em questionários, em análises, em obrigação de compreender tudo.

Apenas ler. Ouvir. Partilhar. Saborear.

A poesia nasceu muito antes da página impressa. Nasceu da voz, do corpo, da oralidade. E continua a revelar toda a sua força quando regressa a esse lugar.

Uma boa leitura em voz alta transforma um poema numa experiência. E as experiências permanecem muito mais tempo do que as explicações.

O que perde uma criança sem poesia?

É uma pergunta difícil.

Talvez nunca possamos responder-lhe completamente. Mas podemos imaginar algumas perdas. Perde uma forma especial de relação com a linguagem, uma fonte inesgotável de imaginação, uma maneira única de olhar para o mundo, uma linguagem capaz de acolher emoções complexas, uma arte que acompanha a humanidade há milhares de anos. E perde, talvez, uma das formas mais bonitas de descobrir que as palavras são muito mais do que ferramentas.

São lugares onde também podemos habitar.

Porque é que as crianças precisam de poesia?

Precisam de poesia pelas mesmas razões que precisam de histórias. Porque precisam de imaginar, sonhar, compreender, de sentir, de crescer.

Mas precisam também de poesia por uma razão muito particular. Porque a poesia lhes mostra que a linguagem não serve apenas para dizer o mundo. Serve também para o reinventar. E talvez essa seja uma das aprendizagens mais importantes que um livro pode oferecer.

A descoberta de que o mundo não está terminado. Que as palavras continuam abertas, a imaginação continua disponível. E que existe sempre espaço para criar novas formas de ver aquilo que nos rodeia.

É por isso que as crianças precisam de poesia. E, verdade seja dita, os adultos também.

É verdade: as crianças precisam de poesia!

Histórias que crescem contigo. E poemas que crescem dentro de ti.