Portes grátis em envios tarifa livros (CTT)

A mesma história

Porque é que as crianças gostam de ouvir a mesma história vezes sem conta?

A mãe do Tomás já sabia o que ia acontecer. Sabia porque acontecia todas as noites. Fechava a gaveta dos livros. Escolhia uma história nova. Sentava-se na beira da cama. E o Tomás dizia:

— Não quero essa.

— Então qual?

— Aquela.

“Aquela” era sempre a mesma. Um álbum ilustrado já gasto. Com as capas dobradas, marcas de dedos nas páginas, uma pequena nódoa de chocolate na contracapa.

A mãe conhecia a história de cor. O Tomás também. Sabia o que acontecia na primeira página, o que acontecia na última. Sabia praticamente todas as frases. E, mesmo assim, queria ouvi-la outra vez.

Muitos pais conhecem esta situação. E muitos fazem a mesma pergunta: Porque é que as crianças insistem em ouvir a mesma história vezes sem conta?

A resposta é mais interessante do que parece.

A repetição não é um defeito

Os adultos vivem obcecados pela novidade. Queremos descobrir livros novos. Filmes novos. Séries novas. Lugares novos. Experiências novas. Associamos novidade a crescimento.

Mas as crianças nem sempre pensam assim. Para elas, a repetição possui um valor especial. Repetem jogos, brincadeiras, canções, palavras, perguntas. E repetem histórias.

Não porque lhes falte imaginação. Mas porque estão a construir uma relação profunda com aquilo que amam.

O prazer de saber o que vai acontecer

Quando lemos um livro pela primeira vez, procuramos descobrir o que acontece. Quando o lemos pela décima vez, procuramos outra coisa. Procuramos o prazer do reconhecimento. O prazer da familiaridade. O prazer de regressar a um lugar conhecido.

As crianças adoram antecipar. Adoram saber que o lobo vai aparecer. Que o dragão vai tropeçar, a personagem principal vai encontrar uma solução. Que determinada frase está prestes a surgir. E quando essa expectativa se confirma, sentem satisfação.

A história torna-se um território seguro. Um lugar onde sabem exatamente onde estão.

Os livros como casa

Há livros que funcionam quase como casas. Não porque sejam confortáveis, mas porque nos acolhem.

Voltamos a eles pelo mesmo motivo que regressamos a certos lugares. Porque nos sentimos bem, conhecemos os caminhos, reconhecemos os sons, sabemos que pertencemos ali.

As crianças experimentam esta sensação de forma muito intensa.

Um livro repetido muitas vezes deixa de ser apenas uma narrativa. Transforma-se num espaço emocional. Num refúgio. Num companheiro.

A memória também se constrói assim

Quando uma criança pede repetidamente a mesma história, está a fazer muito mais do que escutar. Está a memorizar, a organizar informação, a compreender estruturas narrativas, a desenvolver linguagem. Está a criar referências culturais, sem esforço, exercícios ou fichas de trabalho. Apenas através do prazer. Talvez seja uma das formas mais eficazes de aprendizagem,. porque acontece naturalmente.

Os adultos também fazem o mesmo

Gostamos de pensar que a repetição é uma característica infantil, mas basta observarmos a nossa vida.

Quantas vezes ouvimos a mesma música, vemos o mesmo filme, regressamos a um poema, revisitamos um romance de que gostamos particularmente?

Fazemo-lo porque a arte não serve apenas para surpreender, serve também para acompanhar. Efetivamente, existem livros que voltamos a abrir porque precisamos deles. Porque nos recordam quem fomos. Porque nos ajudam a compreender quem somos.

As crianças apenas fazem isso mais cedo. E sem vergonha.

A descoberta dos detalhes

Há outra razão para as releituras. Cada leitura revela algo novo. Um detalhe numa ilustração. Uma palavra que tinha passado despercebida. Uma expressão diferente. Uma emoção nova.

Os bons livros crescem através das releituras. Por isso, muitas vezes, quando uma criança pede a mesma história, não está realmente a ouvir a mesma história. Está a descobrir uma nova camada da anterior.

A confiança e o afeto

A mesma história

Mas existe ainda uma razão mais profunda. Talvez a mais importante. Quando um adulto lê repetidamente a mesma história a uma criança, não está apenas a partilhar um livro. Está a oferecer tempo. Presença. Atenção. Afeto. A criança sabe isso. Mesmo que não consiga explicá-lo. Por vezes, aquilo que ela pede não é apenas a história. É o momento. A voz. A proximidade. O ritual. A sensação de segurança. O livro torna-se parte de uma relação. E as relações importantes merecem repetição.

O que aprendemos com isto?

Talvez devêssemos deixar de perguntar porque é que as crianças querem ouvir a mesma história. Talvez devêssemos perguntar outra coisa. Que tipo de relação estamos a construir quando lhes lemos? Porque, no fundo, a leitura partilhada nunca é apenas sobre livros. É sobre pessoas, presença, memória, amor. E o amor, como sabemos, nunca se cansa de repetir.

Uma última história

Anos mais tarde, o Tomás já não pediu aquele álbum ilustrado. Aprendeu a ler sozinho. Descobriu outros livros. Outras personagens.Outros mundos.

Mas um dia encontrou o velho exemplar numa caixa. Pegou nele. Sorriu. Folheou algumas páginas. E lembrou-se. Não apenas da história. Lembrou-se da voz da mãe. Do quarto. Da cama. Das noites tranquilas.Do sentimento de estar em casa.

É por isso que as crianças pedem a mesma história vezes sem conta. Porque os livros não guardam apenas palavras. Guardam momentos.E alguns momentos merecem ser vividos muitas vezes.

E consigo?

Existe alguma história que o seu filho, neto ou aluno lhe pediu para ler dezenas de vezes?

Conte-nos nos comentários ou nas redes sociais da Trinta-por-uma-linha. Gostaríamos de conhecer esses livros que se transformaram em pequenas casas para os seus leitores. Porque algumas histórias não vivem apenas nas páginas. Vivem nas memórias que construímos à sua volta.

Histórias que crescem contigo. Uma leitura de cada vez.